O Fim do Trabalho Temporário: Reestruturar o Contrato do Artista
A empregabilidade dos criadores — do projeto à perspetiva. Este tema tem-me ocupado desde o meu tempo como professor de Economia Criativa na Fontys. Há algumas semanas, coloquei uma questão no LinkedIn: Por que financiamos projetos, mas não cargos?
O debate que se seguiu (desencadeado pela referência de Falk Hübner a Dawn Bennett) revelou um profundo desejo de mudança estrutural. Otimizámos o setor para a «agilidade», mas, sem querer, acabámos por o otimizar para a «precariedade».
A Teoria: A Armadilha «Proteana»
A investigação de Dawn Bennett (Universidade de Curtin) destaca o conceito de «carreira proteiforme»— uma carreira orientada por valores pessoais, em vez de pela ascensão na hierarquia organizacional. Embora isto pareça libertador, Bennett adverte que muitas vezes se transforma num «imposto sobre a identidade».
O mecanismo: quando um artista tem de mudar constantemente de papel para se adaptar a diferentes fontes de financiamento (um dia é assistente social, no dia seguinte é inovador), acaba por minar a sua identidade artística fundamental.
O resultado: aversão ao risco. Não se consegue criar arte ousada quando se está preocupado com a renda do mês que vem.
A história: Já passámos por isto antes
A ideia de contratar artistas para trabalhar em estruturas não artísticas não é nova. Em 1966, o Artist Placement Group (APG), no Reino Unido, cunhou a frase «O contexto é metade do trabalho». Colocaram artistas como Barbara Steveni e John Latham em empresas (British Steel) e organismos governamentais — não para fazer «arte para o átrio», mas para perturbar a lógica das salas de reuniões.
A conclusão a que chegaram: um artista contratado é uma «pessoa marginal» — alguém que faz as perguntas que o pessoal permanente está demasiado enraizado na rotina para fazer.
O caso atual: «Integrado» vs. «Não integrado»
Um estudo recente do Centro de Economias Criativas de Zurique (Martel & Wickert) analisou os programas de «Artistas Integrados» no âmbito governamental. Os autores identificaram uma distinção crucial:
Não integrado (freelancer): O artista presta um serviço. O impacto limita-se ao projeto.
Incorporado (Funcionário): O artista questiona a premissa. O impacto altera a política.
No Meneer Rick e na Emoves, aplicamos esta lógica «integrada». Não contratamos artistas para «darem workshops»; contratamo-los para serem artistas na nossa estrutura.
A Mudança: Quando oferecemos um contrato de 0,6 ETI, estamos a adquirir «disponibilidade», e não apenas «produto». Essa disponibilidade permite ao artista influenciar o ADN da organização — ensinando criatividade ao contabilista e aprendendo gestão com o gestor.
Guia prático: Como passar de um projeto para uma perspetiva
Para as organizações (os empregadores):
A «Regra do 0,6»: Não contrate 10 freelancers para 10 projetos. Junte esses orçamentos para contratar 1 artista a tempo parcial (0,6 ETI). Obterá mais lealdade, mais memória e um trabalho artístico de melhor qualidade.
Defina o conceito de «espaço livre»: inclua no contrato que 20 % do tempo deles se destina a «investigação artística não atribuída». Se preencher todas as horas com trabalho de produção, transforma-os em operários de fábrica.
Integre, não isole: convide-os para as reuniões estratégicas, não apenas para as reuniões criativas.
Para os criadores (os funcionários):
Sugira um «contrato de prestação de serviços»: Se um cliente lhe propuser três pequenos projetos ao longo de um ano, sugira um contrato de prestação de serviços mensal. «Em vez de três faturas, vamos celebrar um contrato de prestação de serviços com a duração de um ano.»
Venda o «processo», não o «produto»: explique que o seu valor não se resume apenas ao espetáculo final; é a capacidade de resolução de problemas que traz à equipa deles todas as semanas.
Conclusão
A tendência de vanguarda para 2026 não é uma nova estética. É um sistema de remuneração. Se queremos que a arte tenha valor, temos de criar o veículo que a acolhe — e, muitas vezes, esse veículo é um emprego.
Referências
Bennett, D. (2009). «A Academia e o Mundo Real: O Desenvolvimento da Identidade.»
Martel, F., & Wickert, H. (2021). Artistas Integrados. Centro de Economias Criativas de Zurique.
Artist Placement Group. (1966). O contexto é metade do trabalho.
