A tirania das configurações predefinidas: um aviso dos primórdios da era da Internet das Coisas
Em dezembro de 2015, o mundo da tecnologia estava obcecado com a «Internet das Coisas» (IoT). Prometeram-nos uma utopia sem atritos, onde os frigoríficos encomendariam leite e os postes de iluminação comunicariam com os carros.
Naquele inverno, participei na ThingsCon Amsterdam. Embora os dispositivos fossem impressionantes, a ideia mais importante veio do designer Ross Atkin (autor do Manifesto para a Cidade Inteligente). Ele fez uma distinção que define o meu trabalho na área da governação hoje em dia:
«Se tiver alguma preocupação em matéria de privacidade com um termóstato Nest, pode optar por não o comprar. Mas não pode optar por não fazer parte de uma cidade inteligente. Assim que um governo implementar uma rede de sensores, a única forma de a evitar é sair da cidade.»
A assimetria do «opt-out»
Ao reler as minhas notas de 2015, vejo os indícios da nossa crise atual. Passámos uma década a debater a privacidade dos consumidores (cookies, RGPD), mas ignorámos em grande parte a privacidade ambiental.
Quando um sistema passa de um «Produto» (iPhone) para um «Ambiente» (Sala de Aula Inteligente, Praça Pública), o utilizador perde o poder de dizer «Não».
Visão para 2015: Preocupávamo-nos com as «lâmpadas com falhas».
A realidade de 2026: Estamos a viver em ambientes onde a lógica digital é a lei. No meu trabalho com a cultura juvenil, se um jovem quiser participar, tem efetivamente de aceitar ser incluído na rede de recolha de dados.
O Artefacto Desaparecido: O Manifesto da Cidade Inteligente
Na conferência, Atkin propôs uma «Cidade Inteligente» como antídoto para a «Cidade Inteligente». O seu manifesto é um projeto perdido para uma governação ética.
Os Princípios da Cidade Inteligente (2015):
Resolva problemas reais: não basta instalar sensores só porque são baratos.
Legibilidade: O cidadão deve ser capaz de «perceber» o que se passa na rua. Se houver uma câmara a filmar, deve ser evidente quem está a filmar e porquê.
Agência: O sistema deve capacitar os cidadãos, não apenas explorá-los.
Link: Leia o Manifesto original para a Cidade Inteligente
A governação como «design de interface»
O evento contou também com a participação de Claire Rowland (autora de *Designing Connected Products*), que se posicionou contra a «transparência total». Defendeu o «design com costuras»— a ideia de que as «costuras» de um sistema (onde os dados são trocados, onde ocorrem erros) devem ser visíveis, e não ocultas.
A lição para 2026: Temos de deixar de conceber cidades «sem costuras» e começar a conceber cidades «legíveis». Uma estratégia válida de governação digital deve responder à pergunta de Ross Atkin: Quais são os direitos do cidadão que deseja atravessar a praça sem ser registado?
Se não conseguirmos responder a isso, não estamos a construir uma Cidade Inteligente. Estamos a construir uma prisão digital com uma iluminação muito conveniente.
