A financeirização da cidadania

Será que os incentivos da blockchain podem resolver a crise de participação, ou acabam por transformar o dever cívico numa mercadoria?

O conceito de governação descentralizada está a ganhar força. Os municípios mostram-se cada vez mais dispostos a incluir os cidadãos nos processos de tomada de decisão. No entanto, persiste uma falha estrutural: o «fosso da participação». São muito poucos os cidadãos que se envolvem e, dos que o fazem, muitos são os «sospeitos do costume» — aqueles que dispõem de tempo livre e que já se fazem ouvir.

Um dos maiores obstáculos à governação descentralizada é o custo de oportunidade da participação. Pedir aos cidadãos que troquem o seu tempo de lazer por discussões políticas complexas é pedir-lhes muito.

Isto leva-nos ao trabalho do D-CENT (Decentralised Citizens Engagement Technologies), um projeto apoiado pela UE que investiga estruturas para a democracia direta. Mais concretamente, o trabalho do teórico e ativista Denis «Jaromil» Roio apresenta uma solução provocadora: um sistema de recompensas baseado em blockchain denominado Freecoin.

Durante uma sessão recente do DATAstudios, Roio delineou um quadro composto por quatro componentes para democracias cidadãs estáveis e autogeridas. Para compreender o sistema de recompensas, temos primeiro de compreender a arquitetura em que este se insere:

A arquitetura do D-CENT

  1. Notificação aos cidadãos (The Signal): Os municípios geram uma enorme quantidade de informação. Uma estrutura descentralizada requer uma «camada de filtragem» que transmita apenas informações contextuais relevantes a cidadãos específicos, garantindo que estes sejam informados em vez de sobrecarregados.

  2. Elaboração colaborativa de políticas (o processo): Munidos de conhecimento, os cidadãos propõem e aperfeiçoam ideias. Isto vai além das reuniões públicas caóticas, avançando para fases estruturadas de orçamento participativo e elaboração de propostas, transformando as contribuições iniciais em políticas exequíveis.

  3. Votação eletrónica (O mandato): Mecanismos de votação seguros e verificáveis permitem que a comunidade valide as políticas. Isto proporciona o mandato necessário para a legitimidade.

  4. Sistema de Recompensas Blockchain (O Incentivo): Esta é a camada económica fundamental. Uma moeda complementar foi concebida para incentivar os indivíduos a contribuir para o bem comum — a realizar o «trabalho» da democracia.

O Mecanismo: Uma prova de boa-fé?

A D-CENT propõe a utilização da Freecoin (um fork da Bitcoin) não apenas como moeda, mas como uma «moeda social». Ao contrário da Bitcoin, que é «minerada» através do consumo de eletricidade (Prova de Trabalho), a Freecoin é «cunhada» através da realização de trabalho socialmente valioso.

A lógica é algorítmica: sempre que um cidadão participa numa atividade que beneficia a comunidade — cozinhar para um vizinho idoso, limpar um parque ou participar num workshop sobre políticas —, o sistema gera Freecoins. Trata-se de uma moeda que não é respaldada por ouro nem por decreto estatal, mas sim pelo capital social da comunidade.

As regras de emissão — a «política monetária» desta microeconomia — são definidas democraticamente pela própria comunidade. São eles que decidem as taxas de câmbio, os períodos de validade e a «tributação» (penalização por retenção) para evitar a acumulação de moeda.

A Crítica: O valor dos valores

Embora a arquitetura seja elegante, ela acarreta um risco filosófico profundo: a mercantilização da bondade.

Preocupo-me com as implicações de quantificar a generosidade. Ajudar um vizinho idoso é um ato de valor moral intrínseco. No momento em que esse ato é avaliado, medido e compensado com dinheiro, o contrato social altera-se. Passamos de uma «economia da dádiva» (regida por normas sociais) para uma «economia de mercado» (regida por transações).

A honra do gesto desaparece quando chega a fatura?

No contexto dos movimentos políticos, este risco é amplificado. As iniciativas de base prosperam graças a valores e convicções partilhados. Se os «apoiantes» forem, na essência, «trabalhadores remunerados» a ganhar Freecoin, a legitimidade do movimento desmorona-se. Os participantes são movidos pela causa ou pela moeda? Isto introduz uma dose de cinismo nas águas já turvas da política local — o que pode minar precisamente a confiança que a D-CENT pretende construir.

Conclusão

O Freecoin é uma experiência ousada no domínio da governança algorítmica. Procura resolver um problema comportamental (a apatia) através de uma ferramenta económica (incentivos).

Embora continue cético quanto à financeirização do dever cívico, o resultado dependerá provavelmente da vertente «soft» da cultura, e não da vertente «hard» do código. Se a comunidade encarar o Freecoin como um «agradecimento» e não como um «salário», poderá funcionar. Mas se substituir a obrigação moral por um ganho transacional, poderemos descobrir que poupámos o orçamento, mas perdemos o cidadão.

Jorge Alves Lino

Jorge Alves Lino-de Wit é um arquiteto de sistemas culturais que explora a governança como meio de design. Ele concebe e constrói estruturas organizacionais adaptáveis que permitem que a cultura prospere na era digital.

https://jorgealveslino.nl/
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